segunda-feira, 7 de setembro de 2015

O DOM DE LÍNGUAS - LÍNGUAS NOS PERÍODOS PÓS-APOSTÓLICOS



São raros os registros históricos de glossolalia antes do século XIX. Isto se deve ao fato de que os historiadores, em sua totalidade cessacionistas (os que acreditam que as manifestações carismáticas foram restritas ao 1º século da Igreja), omitiam de suas obras as evidências reais de profecias e línguas estranhas, que eram descritas por eles como “excentricidades passageiras de crentes imaturos”.
         Outro motivo é que os casos de glossolalia foram muito raros após o terceiro século até o período da Reforma Protestante, já que o advento da Igreja Católica Romana, com seus dogmas heréticos, lançou a cristandade em uma era de densas trevas espirituais.
         A glossolalia somente voltou a ganhar registros significativos, quando os ventos do Espírito voltaram a soprar com grande ímpeto à partir dos séculos XVIII e XIX.
         Até o terceiro século, além dos registros da Bíblia Sagrada, temos apenas seis registros dignos de crédito, os quais trataremos à seguir.

         Um certo reverendo Frederic William Farrar (1831-1903), que era historiador e Deão da Catedral de Canterbury, na Inglaterra, pesquisando os registros históricos da Igreja Primitiva, descobriu a visita secreta de um príncipe britânico da Coorte Romana a uma reunião entre os cristãos, na qual em um dado momento, segundo ele, “línguas estranhas foram ouvidas”. E ele continua relatando assim: “As palavras que pronunciavam eram elevadas, solenes e cheias de significação misteriosa. Não falavam a sua própria língua, mas pareciam que falavam toda qualidade de idiomas, embora não se pudesse dizer se pudesse dizer se hebraico, grego, latim ou persa. Isso se deu com uns e outros, segundo o impulso poderoso que operava na ocasião”.

         Outro registro ocorreu no segundo século, através de um movimento espiritual liderado por um homem chamado Montano (Montanismo). Este movimento surgiu na Turquia visando um reavivamento na Igreja, que estava esfriando a ponto de extinguir os dons espirituais tão comuns no primeiro século. O mais conhecido adepto do Montanismo foi Tertuliano, um dos pais da Igreja.
         O fundador Montano não possuía nenhum cargo eclesiástico. Juntamente com três mulheres da alta sociedade, andavam pelas cidades pregando a santificação e a preparação para a segunda vinda de Cristo. Manifestavam-se línguas estranhas, interpretação de línguas, revelações e profecias. Nas profecias, o Senhor falava através das mulheres na primeira pessoa: “Eu, o Senhor...”
         O bispado da Ásia Menor, em concílio, condenou o Montanismo em meados de 160 dC, não exatamente pelas línguas estranhas, mas pelo poder de mobilização do dom de profecia que vaticinava contra a frieza espiritual e o formalismo da liderança eclesiástica.
         Após a morte de um de seus mais proeminentes líderes, Tertuliano, a falta de respaldo bíblico nas doutrinas dos montanistas fez com que os avivalistas caíssem em exageros e algumas heresias, culminando com o fim do movimento.
        
         Por incrível que pareça, o terceiro registro provém de um anticristão chamado Celso, um filósofo pagão que repudiava ardentemente os cristãos. Este relatou em um de seus discursos no segundo século (176 dC) que os seguidores de Cristo falavam em línguas estranhas. E ele continua e afirma que os cristãos são “estranhos” e “fanáticos”, e que em suas reuniões “falavam palavras ininteligíveis para as quais uma pessoa racional não consegue encontrar significado”. Ele dizia: “São línguas muito obscuras”.
         Gostaria de observar com você o seguinte fato, mesmo sendo um ávido antagonista ao cristianismo, o filósofo Celso sabia que aquelas línguas não eram meramente um fenômeno natural.

         Outra citação refere-se à Igreja pastoreada (na França) por Irineu, um dos pais da Igreja. Na Igreja do bispo Irineu os dons espirituais estavam em plena atividade. Irineu relata assim: “Temos em nossas igrejas irmãos que possuem dons proféticos e, pelo Espírito Santo falam toda classe de idiomas”.

         Chegamos ao quarto século, o advento da igreja católica romana, que “congelou” o movimento do Espírito Santo que havia na Igreja original (a Primitiva). Eu, como ministro pentecostal, não gostaria de vivido naquela época de cultos frios ao invés de cultos dinâmicos e avivados, e no lugar de ministros “labaredas de fogo”, ministros “iceberg”.
         Porém, ainda assim, há registros de manifestações carismáticas no quarto século. O fundador do primeiro mosteiro, Pacômio, falava em grego e latim sem nunca ter estudado estas línguas, e isto é um fato sobrenatural, dado a dificuldade de ambas.

Também no quarto século, Agostinho, bispo de Hipona, afirma: “Faremos o que os apóstolos fizeram quando impuseram as mãos sobre os samaritanos, pedindo que o Espírito Santo caísse sobre eles: esperamos que os convertidos falem em novas línguas”.

         Após o quarto século cessaram os casos de glossolalia e a manifestação dos dons espirituais, que somente voltaram a tona à partir da Reforma Protestante em 31 de Outubro de 1517 com o “lendário” Martinho Lutero, que segundo historiadores, falava em línguas estranhas, além de manifestar os demais oito dons espirituais.
         Finalmente, após muitos reavivamentos históricos, surge no começo do século XX, em uma ruazinha sem expressão de Los Angeles chamada Azuza Street, o mover do Espírito Santo mais forte, bíblico e duradouro de que se tem notícia, o Movimento Pentecostal.
         A enciclopédia Britânica declara que a glossolalia reaparece nos avivamentos cristãos de todas as épocas. No diário de Thomas Walsh, um dos primeiros pregadores de John Wesley, oito de Março de 1759, encontra-se este registro: “Esta manhã, o Senhor deu-me uma língua que eu não conhecia, elevando a ele a minha alma de uma maneira maravilhosa.”
         John Wesley, evangelista inglês do século XVIII e pai do Metodismo relata: “Cerca das três horas da manhã, enquanto nos encontrávamos em oração fervente, o poder de Deus veio poderosamente sobre nós, de tal maneira que, muitos caíram para o chão... e irrompemos numa voz: Nós te louvamos ó Deus, nós reconhecemos que tu és Senhor!”
         Dwigth L. Moody, evangelista e professor americano do século XIX relata: “Pedi-lhes (aos amigos reunidos) para virem falar comigo, e ali derramaram seus corações em oração pára que eu recebesse a plenitude do Espírito Santo. Veio uma grande fome a minha alma. Não sabia o que era e comecei a clamar como nunca antes havia feito. Sentia que não tivesse este poder não queria viver, nem podia continuar o meu trabalho... só posso dizer que o Senhor se revelou a mim, e tive uma experiência tal do seu amor, que por fim tive que pedir-lhe que tirasse de mim a Sua mão”.
         Você deve estar dizendo: “Mas nestes dois últimos relatos de Wesley e Moody não se menciona línguas estranhas”. Sim, é verdade, e talvez esta seja a experiência constante em sua busca por Deus, um sempre “quase batizado no Espírito Santo”. Tente imaginar as experiências de Wesley e Moody, certamente eles sentiram as línguas espirituais fluindo em seu interior, mas nas ocasiões relatadas, não as verbalizaram.

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

O DOM DE LÍNGUAS


O termo técnico-teológico para o falar em línguas é “Glossolália”; é a fusão de duas palavras gregas: Lalia = “discurso”, “fala” e glossa = “língua”, “linguagem”.
         Ao contrário do “vento” e do “fogo” (Atos 2:1-4), as línguas estranhas são um padrão para todos os discípulos que são cheios do Espírito Santo e queiram andar em uma dimensão de fé sobrenatural, pois as línguas são a principal ferramenta de edificação espiritual do crente.

“E todos foram cheios do Espírito Santo e começaram a falar em outras línguas, conforme o Espírito Santo concedia que falassem.”
 (Atos 2:4)

Vamos trocar “...conforme o Espírito Santo lhes concedia que falassem.” Por “...conforme o Espírito Santo lhes concedia a verbalização inspirada.”
Devemos entender que a “verbalização” é uma atitude pessoal e racional que cabia apenas aos discípulos, porém, tal verbalização foi inspirada pelo Espírito Santo.
Podemos então concluir com exatidão que o Espírito Santo inspira sobrenaturalmente o homem a falar em um idioma desconhecido, mas é o homem que decide se fala em outras línguas ou não, externando tal inspiração.
Vamos definir três aspectos fundamentais: (1) Línguas como manifestação do Espírito; (2) Línguas como sinal externo do batismo no Espírito Santo; e (3) Línguas como Dom.

Línguas como manifestação do Espírito. É uma expressão vocal inspirada pelo Espírito Santo na qual o crente fala em uma língua que nunca aprendeu (At 2:4; 1ª Co14:14-15). Podem ser línguas humanas (At 2:6) ou línguas desconhecidas na terra (1ª Co 13:1).

Línguas como sinal externo do batismo no Espírito Santo. O Espírito do crente se une ao Espírito Santo para louvar e/ou profetizar. Já no inicio da dispensação do Espírito o Senhor deixou claro que as línguas seriam o primeiro sinal da plenitude do Espírito Santo na vida do crente. Este foi um padrão na Igreja Primitiva, e é um padrão para a Igreja em todas as gerações e épocas (At 10:45-46). Sendo assim, podemos saber o local e o momento exato em que alguém recebeu o Batismo no Espírito Santo.

Línguas como Dom. Na lista de Paulo (1ª Co 12:4-10) as línguas estão descritas como um dom com dois objetivos principais:

(1) Línguas seguidas de interpretação pelo Espírito no culto público para a edificação da congregação (1ª Co 14:5-6, 13-17).

(2) Línguas para dirigir-se a Deus em adoração e para auto-edificação.
Obs.: No culto público, silenciosamente (com concessões); na devoção pessoal, à vontade.

O falar em línguas ocorre diversas vezes no N.T.:
         Falar em outras línguas – Atos 2:4
         Falar em línguas – Atos 10:46; 19:6; 1ª Coríntios 12:30; 14:5-6, 18
         Falar numa língua – 1ª Coríntios 14:2,4,13
         Falar em línguas de homens e de anjos – 1ª Coríntios 13:1
         Falar em novas línguas – Marcos 16:17
         Variedade de línguas – 1ª Coríntios 12:10,28
         Línguas – 1ª Coríntios 13:8; 14:22
         Uma língua – 1ª Coríntios 14:14,19,26

A Experiência Pessoal de Paulo

“E Ananias foi, e entrou na casa, e, impondo-lhe as mãos, disse: Irmãos Saulo, o Senhor Jesus, que te apareceu no caminho por onde vinhas, me enviou, para que tornes a ver e sejas cheio do Espírito Santo...”
Atos 8:18a

         O objetivo da imposição das mãos de Ananias em Saulo era que ele fosse cheio do Espírito Santo.
         Lucas não relata nenhuma manifestação da glossolalia neste episódio. É certo, no entanto, que o apóstolo Paulo, depois da experiência na casa do irmão Judas, na Rua Direita, Paulo falava em línguas regularmente e freqüentemente desde então. “Dou graças ao meu Deus, porque falo mais línguas do que vós todos.” (1ª Co 14:18). Se muitos teólogos tradicionais e céticos consideram as línguas inúteis, então porque o sábio e espiritual apóstolo Paulo era tão grato a Deus por esta preciosa dádiva. Acerca disso falaremos mais adiante.

         No livro de Atos dos Apóstolos a experiência de falar em línguas somente ocorre no momento do recebimento do Batismo no Espírito Santo, pois as línguas são a evidência marcante do mesmo. Parece, portanto, perfeitamente lógico que no exato instante da imposição de mãos do discípulo Ananias, Paulo foi batizado no Espírito Santo com a evidência do falar em línguas.

         Paulo desfrutava de uma singular comunhão com o Espírito Santo através da oração, especialmente da oração em línguas. Tal comunhão estava refletida em seu profundo anelo por ver a Igreja desfrutando desta intimidade com o Deus Trino, de sorte que Paulo ministrando a benção apostólica aos crentes da Igreja em Corinto expressou: “A graça do Senhor Jesus Cristo, e o amor de Deus, e a comunhão do Espírito Santo sejam com vós todos. Amém!” (2ª Co 13:13). A sublime graça de Jesus Cristo já se manifestou em seu ministério aos homens, Deus Pai já revelou a grandeza de seu inexplicável amor ao enviar seu único Filho para morrer por nós, mas a comunhão do Espírito Santo se manifesta hoje para a Igreja, na dispensação da graça, para que todo filho de Deus possa gozar de estreita e íntima comunhão com a Divindade por sua terceira maravilhosa Pessoa. Paulo queria que a comunhão do Espírito Santo fosse uma realidade plena e constante para os crentes, pois ele mesmo desfrutava desta dádiva graciosa.

         O segredo da intimidade de Paulo com o Senhor era justamente sua vida singular de oração, que incluía longos períodos de oração em línguas. Além disso, através da oração em línguas Paulo recebeu as mais profundas revelações doutrinárias que o nutriram espiritualmente para escrever suas treze cartas e desvincular a fé cristã do judaísmo ortodoxo. Aliás, todo conhecimento espiritual de Paulo não teve nenhuma espécie origem acadêmica; ele mesmo considerou todo seu conhecimento intelectual e religioso como esterco (Fl 3:8); sua ciência espiritual também não foi adquirida através de ensinos de homens, mas por revelação direta de Jesus Cristo (Gl 1:11-12).

         Os escritos doutrinários de Paulo são notoriamente caracterizados por sua compreensão de mistérios espirituais que somente poderiam ser absorvidos por meios divinos, o próprio Paulo escreveu acerca disso: “pelo que, quando ledes, podeis perceber a minha compreensão do mistério de Cristo, o qual, noutros séculos, não foi manifestado aos filhos dos homens, como, agora, tem sido revelado pelo Espírito Santo aos seus santos apóstolos e profetas.” (Ef 3:4-5).

         A principal característica espiritual de Paulo era sua profunda compreensão e conhecimento dos tempos, os escritos paulinos revelam que ele não estava deslocado no tempo, tanto em relação à sua própria vida e ministério, quanto à dispensação dos tempos da Igreja. O Espírito Santo revelou a Paulo o tempo oportuno que Deus escolhera para restaurar todas as coisas em Cristo.

“descobrindo-nos o mistério da sua vontade, segundo o beneplácito, que propusera em si mesmo, de tornar a congregar em Cristo todas as coisas, na dispensação da plenitude dos tempos, tanto as que estão nos céus como as que estão na terra.”
Efésios 1:9-10

         Paulo está aqui declarando que o mistério da vontade agora está revelado à Igreja de forma tão clara e cristalina, como jamais esteve, nem mesmo nos tempos de profetas como Moisés e Elias. Ele escreve que esta soberana vontade de Deus sempre foi preparar uma ocasião ideal para a manifestação do Filho Deus, no qual todas as coisas seriam congregadas. Este “tempo perfeito” ou “chronos pleroma” era bem conhecido por Paulo, que depois de uma veemente exortação aos romanos sobre amor, vigilância e pureza, alertou: “E isto digo, conhecendo o tempo...” (Rm13:11).

         Outro aspecto em que Paulo estava profundamente instruído e preparado era com relação à batalha espiritual e o papel da Igreja do Senhor na mesma, e a grande chave desta visão profética sobre o reino espiritual era justamente a oração no Espírito (em línguas): “orando em todo tempo com toda oração e súplica no Espírito...” (Ef6:18).
         Acerca da origem das revelações de Paulo na glossolalia estudaremos mais a frente.


Continua...

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terça-feira, 18 de agosto de 2015

SOCIÓLOGO OU MÍSTICO


Confesso que por vezes me sentia espiritualmente diminuído pelo fato de apreciar com admiração o zelo incansável de grandes “profetas sociais”. Olhava para minha própria realidade ministerial e abordagem discursiva com profundo senso de insatisfação, pois via em mim uma espécie de omissão social como ministro do evangelho. Tal sentimento me causou confusão interior e problemas de autoestima.

É realmente maravilhoso observar o ativismo inflamado de homens como Martin Luther King Jr., que com seu incansável senso de justiça, pregou a liberdade defendendo os direitos civis da população afro-americana, e isso, imbuído de uma clarividência profética indiscutível. King, na historicidade de sua formação acadêmica, familiar e religiosa, desenvolveu uma clara teologia social, e consequentemente, uma espiritualidade social. São “sociólogos” por excelência, pois diagnosticam e prognosticam os movimentos e demandas sociológicas com precisão divina inspirada.

Por fim compreendi a diversidade motivacional de cada indivíduo em sua espiritualidade. Embora a igreja deva transcender o “kerigma” (pregação) para praticar a “diakonia” (serviço), algumas comunidades eclesiais (igrejas locais) nasceram e cresceram com dinâmicas espirituais essencialmente carismáticas, primando pelo metafísico e o transcendente. Bem como alguns ministros desenvolverão uma teologia crucialmente mística, dando ênfase a conduzir indivíduos de forma experiencial e contemplativa.

Sou um cristão de confissão teológica e experiência pentecostal, percebi que por ter desenvolvido minha espiritualidade a partir da devoção particular e da disciplina espiritual, meu ministério ao próximo e abordagem querigmática atuam na promoção do entusiasmo da fé e da relação mística com as Escrituras. Aliás, o próprio termo “mística”, cujo teor foi usurpado e distorcido por seguimentos espiritualistas esotéricos e ocultistas, tem sua origem na teologia cristã. Mística, originalmente falando, trata-se do aspecto imaterial e subjetivo da experiência cristã, ou seja, o relacionamento real com Deus a partir da complexidade existencial do homem interior.

Enquanto o próprio Espírito de Deus inspira alguns indivíduos à atuarem como vozes proféticas no âmbito social, a outros, Ele inspira a promoverem a espiritualidade carismática com ênfase nas manifestações supranaturais e no desenvolvimento espiritual a partir da comunhão profunda com a Divindade.

Hoje estou em paz. Embora empreenda alguns esforços de natureza sociológica, não sou um profeta social. Tenho sido um canal divino de renovação espiritual. Sou um “místico”. Amém!

sábado, 15 de agosto de 2015

A FÉ PENTECOSTAL NA FAVELA

Uma reflexão sócio-teológica sobre a experiência pentecostal nas camadas pobres da sociedade.

A favela tornou-se um elemento cultural em nossa nação. Turistas de países desenvolvidos têm buscado levar em sua bagagem de volta as impressões e lembranças do país tropical estampadas em nossas paisagens paradisíacas, que por vezes se misturam num paradoxo social às moradias marginalizadas. Como na belíssima topografia da cidade maravilhosa com o pão de açúcar e outras encostas estampadas pelos guetos e casebres escorados precariamente.
Essa realidade brasileira que parece sociologicamente irreversível tem de fato produzido uma mentalidade de desprezo no inconsciente coletivo, ou seja, esses grupos marginalizados são mentalmente programados a terem um auto conceito depreciativo, legando às gerações futuras uma penosa desesperança. Até que por fim, alguns desses desiludidos e rejeitados tem seu primeiro contato com a fé cristã pentecostal, que lhes apresenta prioritariamente o Cristo que na essência da palavra é Redentor. Sim, em Jesus Cristo, o maior ícone histórico de zelo pelos pobres e necessitados, é encontrada a esperança que transcende a fenomenologia antropológica e abre caminho para a experiência mística.
O protestantismo como uma das forças históricas do capitalismo segundo o sociólogo Max Weber, resgatou o conceito do Deus provedor material que fora omitido pelos votos de pobreza do monasticismo católico. Agora, a partir da reforma protestante, cada classe marginalizada vê em Deus, além do aspecto soteriológico (a salvação da alma) a esperança de prosperidade terrenal acesa.
Porém, assim como há uma teologia da prosperidade, há uma teologia do contentamento. Como pastor evangélico, já tive a maravilhosa e enriquecedora experiência de pastorear uma igreja dentro da favela, e pude diagnosticar a condição psíquica das pessoas, e o que percebi é que uma boa parte deles sente-se perfeitamente realizada com seu status quo e nem planejam mudar. Na favela, ao contrário do que eu pensava, tem famílias estruturadas, padrões de moral e éticas íntegros e muita alegria, em paradoxo, é claro, com os desajustes sociais que estão presentes hoje em todas as esferas.
As pequenas comunidades eclesiais carismáticas estão espalhadas pelos morros, favelas e guetos, como a nova e revigorante fonte de esperança. Mesmo quando essas classes não alcançam a esperada prosperidade financeira no tempo desejado, desenvolvem uma espiritualidade mística que alimenta neles a ideia de que apesar de não terem acesso a presidentes, governadores e prefeitos, eles têm simplesmente acesso a Deus pela obra redentora de Cristo e pela experiência metafísica do próprio Espírito de Deus os habitando e neles e através deles se movendo. Aliás, eles encontram na experiência pentecostal o senso de significado e reconhecimento. Eles não têm expressão social, mas possuem influência espiritual sobre outras pessoas, conduzindo-as à mesma experiência divina que experimentaram.
Essa “descoberta” de Deus, não omite o fato de que morar na favela possui um “q” de depreciativo social, mas dilui a desesperança e a crise de auto estima, fazendo da mais precárias das geografias sociais um pedaço do Éden. É uma questão de mentalidade subjetiva mais que de realidade objetiva. Não se trata de PNL (programação neolinguística), mas o novo auto conceito dos crentes pentecostais produzem uma nova verbalização de esperança e autoridade.
Essa mesma esperança tem sido encontrada pelas esferas mais elitizadas e intelectualizadas da sociedade, que após se embrenharem em buscas existências infrutíferas, descobrem na pessoa do Cristo histórico e da fé, o preenchimento de seu vazio existencial, vazio este que cedo ou tarde assola qualquer individuo dessa diversificada sociedade pós moderna.
Assim, seja no menor casebre da favela ou na mais luxuosa mansão do bairro nobre, a experiência da fé pentecostal tem produzido esperança transformadora aos indivíduos.

Ob.: Esse texto foi elaborado por mim para complementar a abordagem de uma professora da rede pública de ensino (que me solicitou), que está escrevendo um livro de cunho sociológico antropológico sobre o sentimento e a vida de quem mora na favela.