terça-feira, 26 de dezembro de 2017

PIEDADE E AUTO AFIRMAÇÃO (Por Enéas Ribeiro)


TEXTO ÁUREO

Nada façais por contenda ou por vanglória, mas por humildade; cada um considere os outros superiores a si mesmo.
(Filipenses 2:3)

VERDADE APLICADA

A verdadeira piedade não combina com a autoafirmação. O altruísmo é a marca do verdadeiro cristão.

ESCRITURA BASE

E eis que se levantou um certo doutor da lei, tentando-o, e dizendo: Mestre, que farei para herdar a vida eterna?
E ele lhe disse: Que está escrito na lei? Como lês?
E, respondendo ele, disse: Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todas as tuas forças, e de todo o teu entendimento, e ao teu próximo como a ti mesmo.
E disse-lhe: Respondeste bem; faze isso, e viverás.
Ele, porém, querendo justificar-se a si mesmo, disse a Jesus: E quem é o meu próximo?
E, respondendo Jesus, disse: Descia um homem de Jerusalém para Jericó, e caiu nas mãos dos salteadores, os quais o despojaram, e espancando-o, se retiraram, deixando-o meio morto.
E, ocasionalmente descia pelo mesmo caminho certo sacerdote; e, vendo-o, passou de largo.
E de igual modo também um levita, chegando àquele lugar, e, vendo-o, passou de largo.
Mas um samaritano, que ia de viagem, chegou ao pé dele e, vendo-o, moveu-se de íntima compaixão;
E, aproximando-se, atou-lhe as feridas, deitando-lhes azeite e vinho; e, pondo-o sobre o seu animal, levou-o para uma estalagem, e cuidou dele;
E, partindo no outro dia, tirou dois dinheiros, e deu-os ao hospedeiro, e disse-lhe: Cuida dele; e tudo o que de mais gastares eu to pagarei quando voltar.
Qual, pois, destes três te parece que foi o próximo daquele que caiu nas mãos dos salteadores?
E ele disse: O que usou de misericórdia para com ele. Disse, pois, Jesus: Vai, e faze da mesma maneira.” (Lucas 10:25-37).

INTRODUÇÃO

A característica essencial da verdadeira piedade é a humildade. É uma das nove qualidades do fruto do Espírito (Gl 5:22). É o maior legado espiritual deixado por Jesus Cristo aos seus seguidores (Mt 11:29).
Humildade não combina com autoafirmação. E neste século tão competitivo e egocêntrico, jamais o ser humano se auto afirmou com tanto ímpeto, seja em sua natureza (antropocentrismo), ou como indivíduo (egocentrismo).
A parábola do Bom samaritano traduz o coração e a vontade de Deus quanto a piedade altruísta. O altruísmo por definição é o antônimo do egoísmo. É a qualidade de se importar sinceramente com o próximo acima de si próprio.
Cristãos verdadeiramente piedosos são profundamente humildes, e nesta lição, trataremos da verdadeira natureza deste fruto do Espírito.

1.     A MOTIVAÇÃO ALTRUÍSTA

O que motiva nossas boas obras? Devemos responder essa pergunta para nós mesmos, pois sua resposta revelará nosso coração. O genuíno cristianismo implica no cuidado do próximo mesmo em detrimento de si mesmo, ou seja, para o cristão de verdade, nada diz respeito a si mesmo, mas sim ao bem estar do próximo.
A piedade é revelada por uma atitude sacrificial de amor. Conhecemos o amor nisto: que ele [Jesus] deu a sua vida por nós, e nós devemos dar a vida pelos irmãos.” (1 João 3:16).
Os relacionamentos só são sólidos e saudáveis quando há mútua renúncia e doação.
Esta piedade altruísta é o sustentáculo do casamento. Não se casa para ser feliz, se casa para fazer feliz. Em qualquer relacionamento piedoso, nosso anelo deve ser o de fazer as pessoas felizes sem esperar reciprocidade. No âmbito natural e no conceito deste mundo, parece injusto, mas a verdadeira justiça está nos princípios do Reino de Deus, e nossa real recompensa está Nele.
Esta piedade deve nortear todos os níveis de relacionamento: marido e mulher, pais e filhos, discípulos e mentores, patrões e empregados, amigos...
Não atente cada um para o que é propriamente seu, mas cada qual também para o que é dos outros.” (Filipenses 2:4).

2.     FAZENDO PARA A PESSOA CERTA

A piedade verdadeiramente altruísta, não somente faz pelo próximo como também, faz em primazia para a Pessoa certa: DEUS. A única maneira de não nos frustrarmos pela falta de reciprocidade do próximo é esperar somente em Deus, fazendo tudo Nele, por Ele e para Ele. “Portanto, quer comais quer bebais, ou façais outra qualquer coisa, fazei tudo para glória de Deus.” (1 Coríntios 10:31).
Neste século marcado por um espírito tão patente de rebelião e insubordinação, a Palavra de Deus nos confronta à obediência às autoridades, como ao próprio Cristo: “Vós, servos, obedecei a vossos senhores segundo a carne, com temor e tremor, na sinceridade de vosso coração, como a Cristo.” (Efésios 6:5). Se trabalhamos somente por aumentos e promoções jamais experimentaremos a excelência. Se nossa dedicação está condicionada ao reconhecimento humano, jamais veremos a promoção e o favor de Deus. “Viste o homem diligente [dedicado] na sua obra [no seu trabalho]? Perante reis será posto; não permanecerá entre os de posição inferior.” (Provérbios 22:29).
Cristãos piedosos honram líderes e autoridade constituídas (Rm 13: 1-2; Cl 3:22; 1 Tm 6:1-2; Tt 2:9)
Os senhores também devem nutrir um sentimento de serviço aos seus servos (Ef 6:9; Cl 4:1).
A questão do piedoso altruísmo cristão não somente o que fazemos, mas para quem fazemos. E Deus deve ser o alvo de nossa devoção, trabalho e dedicação em tudo.

3.     QUATRO ORIGENS DA INIQUIDADE

Parece paradoxal declarar que o mal nasceu no ambiente do bem. Mas na verdade, aquilo que conhecemos como Pecado, não teve sua origem na Terra, mas sim, no Céu. Foi no coração de um Querubim (anjo) de alta patente celestial que brotou o primeiro pecado: ORGULHO. E Palavra de Deus numa alegoria profética do profeta Ezequiel, nos revela as quatro origens da Iniquidade em Lúcifer (Ez 28:11-17).
O interessante é que as coisas que geram o pecado não são pecado, e são: (1) Sabedoria; (2) Beleza; (3) Posição; e (4) riqueza.
(1)  SABEDORIA. ...Tu és o aferidor de medida, cheio de sabedoria...” (v. 12b)
Sabedoria; esta maravilhosa dádiva de Deus, que deveria ser uma coroa de honra para benefício do próximo, muitas vezes se torna, no coração de alguns, a raiz da iniquidade. Mesmo Salomão se viu envaidecido e embriagado por tudo o que a sabedoria o fez alcançar. Existem dois tipos de sabedoria, a sabedoria de Deus que é dada, e sabedoria da natural que é adquirida, e esta última é a que pode corromper. Lúcifer possuía a sabedoria divina, porém se estribou na própria sabedoria (Pv 3:5).

(2) BELEZA. Elevou-se o teu coração por causa da tua formosura, corrompeste a tua sabedoria por causa do teu resplendor...” (v. 17a)
Apesar do conceito grego hedônico de beleza, cada grupo étnico possui um padrão de beleza peculiar. A beleza não é pecado, mas o moderno culto à estética e ao “belo” tem desviado cada vez mais a nossa sociedade da piedade. Essa atitude narcisista está presente em todos os seguimentos sociais, até mesmo no religioso (Pv 7:10; 1 Tm 2:9). É interessante ressaltar que ao encarnar, o Cristo não primou por este padrão grego de estética, frustrando o messianismo como objeto de desejo, pois, “não tinha beleza nem formosura e, olhando nós para ele, não havia boa aparência nele, para que o desejássemos.” (Isaías 53:2).
Lúcifer possuía tal beleza, e a mesma o corrompeu.

(3) POSIÇÃO. Tu eras querubim ungido para proteger, e te estabeleci; no monte santo estavas...” (v. 14)
As guerras e conflitos da atualidade e a desleal competitividade profissional tem um alvo comum: POSIÇÃO. O ser humano seduzido por sua própria vaidade busca se promover em detrimento da integridade alheia, e isto no âmbito profissional, acadêmico, artístico, desportivo, e até religioso.
Como supremo modelo da piedade altruísta, Nosso Senhor Jesus abdicou de sua posição soberana para se dedicar ao serviço em favor do próximo. Desceu posições até o mais baixo possível: Da glória celeste ao ventre de Maria, e daí à condição de filho subordinado ao homem, depois a funcionário de carpintaria, ao serviço de doze homens e das multidões, a réu no sinédrio, condenado de cruz, ao sepulcro, e às partes mais baixas da terra.
Este sentimento de Cristo deve permear o nosso coração. “De sorte que haja em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, Que, sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus, Mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens; E, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte, e morte de cruz.” (Filipenses 2:5-8).
Lúcifer sucumbiu às riquezas que possuía.

(4) RIQUEZA. ...toda pedra preciosa era a tua cobertura...” (v. 13)
O dinheiro, o vil metal. Cujo amor é declarado pela Palavra de Deus como a raíz de toda espécie de males (1 Tm 6:10). Assim como sabedoria, beleza e posição, não é pecado possuir dinheiro, ao contrário, neste plano material, ele responde por tudo (Ec 10:19b). Mas no mesmo livro Salomão declara: “Quem amar o dinheiro jamais dele se fartará; e quem amar a abundância nunca se fartará da renda...” O dinheiro é o ídolo que tenta fazer frente ao Deus verdadeiro (Lc 16:13) (Eclesiastes 5:10). O dinheiro foi a perdição do apostolo Judas, tesoureiro do ministério de Jesus (Jo 12:6).
Muitos casamentos falem pela busca de mais dinheiro. Muitas famílias se destroem pela busca de mais dinheiro, muitas empresas quebram pela busca de mais dinheiro.
A busca pelo dinheiro não pode nos privar daquilo que é o melhor da vida: a família, os filhos, a contemplação. (Ec 2:24; 9:9).
As incontáveis riquezas que Lúcifer possuía corromperam seu coração.

4.     LIBERTOS DA VANGLÓRIA E DA AUTOPROMOÇÃO

Sim, o homem como nunca antes está de vangloriando e se auto promovendo. Você já teve a deprimente e constrangedora experiência de conversar com alguém que somente conta vantagem, que laureia seus próprios méritos e realizações? Nada pode ser tão pequeno. O homem piedoso e altruísta está sempre preocupado em celebrar as qualidades e conquistas alheias. “Nada façais por contenda ou por vanglória, mas por humildade; cada um considere os outros superiores a si mesmo.” (Filipenses 2:3). Este cristão também não inveja e não se deixa levar por vanglórias de outrem para também se vangloriar. “Não sejamos cobiçosos de vanglórias, irritando-nos uns aos outros, invejando-nos uns aos outros.” (Gálatas 5:26).
Em nosso século midiático e refém das redes sociais as pessoas encontraram sua tão sonhada plataforma de autopromoção. Cada tolo pensamento “tem que ser publicado”. Publicidade é a palavra de ordem. Claro que não podemos negar que se constitui uma ferramenta extraordinária de evangelização e edificação; afinal, imagine o apóstolo Paulo de posse de instagram, facebook e whatsapp!
Há tantas coisas que não edificam, e o nosso compromisso cristão deve ser com a edificação, e não com tolices e futilidades.  “Não saia da vossa boca nenhuma palavra torpe, mas só a que for boa para promover a edificação, para que dê graça aos que a ouvem.” (Efésios 4:29). Ler também Efésios 5:3-4.
O piedoso e altruísta não exagera a publicidade em si, mas em sua fé. Em 1904, no maior reavivamento nacional da era moderna, no País de Gales, o maior nome do mover foi o jovem Evan Roberts de 23 anos, que se negava a estar em fotografias e entrevistas, temendo usurpar a glória de Deus como autor do avivamento. Em nossa era isso seria muito extremo, mas poderíamos, no mínimo ser menos personalistas e performáticos na publicidade. Nosso modelo como sempre é Jesus. “Mas Jesus, ... afastou-se dali. Muitos o seguiram, e a todos ele curou. Advertindo-lhes, porém, que o não expusessem à publicidade.” (Mateus 12:15-16 - VRA).
Os próprios irmãos de Jesus o instigavam para se tornar mais emblemático nas “redes sociais”, e ele não repudiou de todo a ideia, mas disse: “Ainda não é chegado o meu tempo” (Mateus 7:3-6). Não se promova porque todos o fazem, promova quando você estiver cheio da coisa certa, e no tempo certo para não ser mais um.

CONCLUSÃO

Eis a razão de nossa geração ser tão profana e irreligiosa. Os valores de Deus foram substituídos por valores humanistas. O livre curso da iniquidade esfriou a caridade no coração humano (Mt 24:12). O homem agora se ostenta e usurpa a posição de “centro do Universo”.
Mas nós, a Igreja, precisamos nos voltar para a Palavra de Deus e para o supremo modelo de Cristo Jesus.
Nosso “EU” deve ser definitivamente crucificado para que vivamos plenamente a Vida de Cristo, em todo o seu poder, virtude e influência. Somente a Igreja, como comunidade altruísta, tem o poder de transformar esta sociedade ególatra, egocêntrica e egoísta. Vamos renovar nossas mentes e nos transformar para transformar nossos contextos.
Então disse Jesus aos seus discípulos: Se alguém quiser vir após mim, renuncie-se a si mesmo, tome sobre si a sua cruz, e siga-me.” (Mateus 16:24).

QUESTIONÁRIO

1.     DEFINA ALTRUÍSMO.
2.     EM QUE IMPLICA O VERDADEIRO CRISTIANISMO?
3.     COMO JESUS SE POSICIONOU EM RELAÇÃO À SUA PUBLICIDADE?
4.     CITE AS QUATRO ORIGENS DA INIQUIDADE.
5.     PARA QUEM DEVEMOS FAZER E NOS APRESENTAR? JUSTIFIQUE.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

O MISTÉRIO DA PIEDADE



TEXTO ÁUREO
E, sem dúvida alguma, grande é o mistério da piedade: Deus se manifestou em carne, foi justificado no Espírito, visto dos anjos, pregado aos gentios, crido no mundo, recebido acima na glória.” (1 Timóteo 3:16)

VERDADE APLICADA
A verdadeira piedade está e emana única e exclusivamente na Pessoa de Jesus Cristo.

ESCRITURA BASE
E Jesus, vendo a multidão, subiu a um monte, e, assentando-se, aproximaram-se dele os seus discípulos;
E, abrindo a sua boca, os ensinava, dizendo:
Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus;
Bem-aventurados os que choram, porque eles serão consolados;
Bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a terra;
Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão fartos;
Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia;
Bem-aventurados os limpos de coração, porque eles verão a Deus;
Bem-aventurados os pacificadores, porque eles serão chamados filhos de Deus;
Bem-aventurados os que sofrem perseguição por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus;
Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós por minha causa.
Exultai e alegrai-vos, porque é grande o vosso galardão nos céus; porque assim perseguiram os profetas que foram antes de vós.
Vós sois o sal da terra; e se o sal for insípido, com que se há de salgar? Para nada mais presta senão para se lançar fora, e ser pisado pelos homens.
Vós sois a luz do mundo; não se pode esconder uma cidade edificada sobre um monte;
Nem se acende a candeia e se coloca debaixo do alqueire, mas no velador, e dá luz a todos que estão na casa.
Assim resplandeça a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai, que está nos céus.
Não cuideis que vim destruir a lei ou os profetas: não vim abrogar, mas cumprir.
Porque em verdade vos digo que, até que o céu e a terra passem, nem um jota ou um til jamais passará da lei, sem que tudo seja cumprido...
Sede vós pois perfeitos, como é perfeito o vosso Pai que está nos céus.
(Mateus 5:1-18, 48)

INTRODUÇÃO

         A saga da Vinda de Cristo à Terra é a expressão máxima da piedade, pois revela o coração do próprio Deus, de onde emana a verdadeira piedade.
Jesus Cristo personificou o conceito de piedade, sendo Ele mesmo o Deus-Homem. Ele nos revelou o coração piedoso de Deus, o Pai, em suas atitudes e palavras, demonstrando ao mundo um novo, maravilhoso e único estilo de vida que deve ser vivido pela humanidade. Sim, PIEDADE pode, dentre outras definições, ser conceituada como “O ESTILO DE VIDA DIVINO”, que foi tornado possível para o homem pela obra do Espírito de Deus que habita todo aquele que reconhece e crê em Jesus Cristo como Seu Salvador e Senhor de suas vidas. Isto é um legítimo “cristão”, a nova e definitiva expressão da verdadeira piedade.
         Nesta lição, analisaremos aquele que pode ser considerado o texto áureo da piedade. O texto paulino de 1 Timóteo 3:16, que disseca a essência da piedade na trajetória gloriosa do Cristo, Jesus.

1.     MANIFESTADO NA CARNE

Este é talvez o maior dos mistérios ocultados no A.T. e aos santos da Antiga Aliança (Cl 1:26-27), a encarnação do próprio Deus, a Palavra criadora do Universo manifestada em carne. O célebre filósofo grego Heráclito, expôs o conceito do “LOGOS”, no qual em síntese, ele atribui todas as coisas existentes a uma fonte subjetiva e abstrata chamada “A PALAVRA” (logos em grego). Este conceito era prevalecente no pensamento antigo na época de Jesus. E foi João, que ao escrever seu evangelho propaga a “bombástica” notícia: “kai o logoV sarx egeneto kai eskhnwsen en hmin kai eqeasameqa thn doxan autou doxan wV monogenouV para patroV plhrhV caritoV kai alhqeia” (João 1.14 - grego). “E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade.” (português). Aqui, o íntimo discípulo de Jesus, João, está declarando que, de fato, o LOGOS é DEUS, e que este enigmático “logos” de Heráclito se fez homem na Pessoa de Jesus Cristo. Na eternidade a nomenclatura da Santa Trindade é: O Pai, A Palavra e o Espírito (1 Jo 5:7), mas aqui, no tempo e no espaço-matéria, se tornou: O Pai, O Filho e O Espírito Santo (Mt 28:19; 2 Co 13:13).
Esta é parte crucial do Mistério da Piedade, a Encarnação do Verbo, Deus feito homem. JESUS CRISTO.

2.     JUSTIFICADO EM ESPÍRITO

A maior manifestação da piedade divina foi a obra da JUSTIFICAÇÃO. Em termos legais, o homem estava irreversivelmente condenado ao inferno, pois em Adão, todos pecaram; cada homem e mulher na face da terra nascem sob a maldição do Pecado (Rm 3:23; 5:12-14; 6:23a). Deus então, através da obra de Jesus Cristo na cruz, decidi não nos imputar Pecado, ou seja, Ele absolve todo aquele que crê e vive para Jesus Cristo. Somos justificados quando simplesmente cremos em Jesus (Rm 5:1).
Mas a maior manifestação da piedade de Deus, não reside no fato de termos sido justificados, mas na necessidade de justificar Jesus. Sim, em 1 Timóteo 3:16 a Bíblia diz que Jesus foi justificado em espírito. Mas porque o único Homem integralmente justo que já nasceu, precisaria ser justificado? Eis o mistério da piedade: “Àquele que não conheceu pecado, o fez pecado por nós; para que nele fôssemos feitos justiça de Deus.” (2 Co 5:21). O que significa isso? Deus “transferiu” toda a perfeita justiça de Jesus Cristo para nossa conta, e revelou sua piedade “transferindo” toda injustiça de cada homem pecador para a conta de Jesus Cristo. Assim, Jesus foi feito pecador na cruz e precisou ser justificado no espírito. A morte por um momento teve legalidade (Rm 6:23a) “aprisionou” Jesus por causa do Pecado, o que fica evidenciado pelas palavras do apóstolo Pedro: “Ao qual Deus ressuscitou, soltas as ânsias da morte, pois não era possível que fosse retido por ela.” (Atos 2:24). Jesus também, por causa do Pecado, esteve, por um momento, sujeito ao inferno. Pelo que diz também Pedro em seu sermão, fazendo menção às palavras do Salmo 16:10: “Pois não deixarás a minha alma no inferno, Nem permitirás que o teu Santo veja a corrupção.” (Atos 2:27). Note que o termo: “não deixarás minha alma no inferno”, faz uma alusão a que Jesus foi submetido ao inferno, mas que não foi deixado lá, pois em sua alma/espírito foi justificado, para por sua ressurreição nos justificar: “O qual por nossos pecados foi entregue, e ressuscitou para nossa justificação.” (Romanos 4:25). Jesus morreu e recebeu condenação no seu corpo (1 Pe 2:24), mas o seu espírito foi vivificado (1 Pe 3:18); uma ressurreição perfeita e irreversível! Isto é o Mistério da Piedade.

3.     VISTO DOS ANJOS

Não sabemos ao certo que classes de anjos tinham acesso à Santa Trindade na eternidade, mas o Homem Jesus jamais foi visto no céu, pois Ele preexistia, como já dissemos, como “A PALAVRA”. Na verdade, podemos entender que Jesus Cristo e sua Obra redentora estavam ocultos ao extraordinário conhecimento dos sábios anjos, e somente foi revelado através do ministério da Igreja. “Para que agora, pela igreja, a multiforme sabedoria de Deus seja conhecida dos principados e potestades nos céus.
(Efésios 3:10)
Parte deste “Mistério da Piedade”, é que Jesus Cristo foi VISTO DOS ANJOS. Sim, mas quando isto aconteceu?
Jesus Cristo foi visto pelos anjos após ser manifestado na carne e justificado em espírito, ou seja, quando o Senhor concluiu sua obra no mundo inferior (Efésios 4:8-10; 1 Pedro 3:19), Ele subiu ao céu dos céus com o sangue da perfeita expiação para oferecer diante de Deus Pai no verdadeiro Tabernáculo (Hebreus 8:1-2; 9:11-14). Foi neste momento, no céu, ainda um pouco antes de sua ressurreição ao terceiro dia, que Jesus entrou triunfantemente no Tabernáculo celestial e foi visto pelos anjos. E pela primeira vez, carne e sangue entram no Santo Monte de Deus, o lugar mais restrito do universo (Salmos 24:3-5). De forma poética e profética, o salmista narra a experiência dos anjos em ver JESUS CRISTO: “Levantai, ó portas, as vossas cabeças; levantai-vos, ó entradas eternas, e entrará o Rei da Glória. Quem é este Rei da Glória? O Senhor forte e poderoso, o Senhor poderoso na guerra. Levantai, ó portas, as vossas cabeças, levantai-vos, ó entradas eternas, e entrará o Rei da Glória. Quem é este Rei da Glória? O Senhor dos Exércitos, ele é o Rei da Glória.” (Salmos 24:7-10).

4.     CRIDO NO MUNDO

Para que o Mistério da Piedade se fizesse revelado, era necessário que Deus concedesse ao homem um poderoso elemento de iluminação: A FÉ. Após sua ressurreição a mensagem do Evangelho estava completa (ENCARNAÇÃO, EXPIAÇÃO, RESSURREIÇÃO e GLORIFICAÇÃO), e agora, o mundo teria Alguém e algo completo para crer e ter desvendado o grande mistério. “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.” (João 3:16). O Mistério da Piedade é Salvação de todo ser humano que crê, judeu ou gentio. “Porque ele é a nossa paz, o qual de ambos os povos fez um; e, derrubando a parede de separação que estava no meio, Na sua carne desfez a inimizade, isto é, a lei dos mandamentos, que consistia em ordenanças, para criar em si mesmo dos dois um novo homem, fazendo a paz, E pela cruz reconciliar ambos com Deus em um corpo, matando com ela as inimizades. E, vindo, ele evangelizou a paz, a vós que estáveis longe, e aos que estavam perto. (Efésios 2:14-17). Os anjos não precisam de fé, pois eles vêem o invisível, mas a fé é um produto gerado especificamente para homem, que não tem acesso pleno ao invisível (Hebreus 11:1). Os incrédulos estão em estado de total cegueira espiritual (2 Coríntios 4:3-4) e condenados (Marcos 16:16) sem a mensagem do Evangelho. O mundo só pode conhecer o Mistério da Piedade através da pregação do Evangelho. “Porque todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo. Como, pois, invocarão aquele em quem não creram? e como crerão naquele de quem não ouviram? e como ouvirão, se não há quem pregue? E como pregarão, se não forem enviados? como está escrito: Quão formosos os pés dos que anunciam o evangelho de paz; dos que trazem alegres novas de boas coisas.” (Romanos 10:13-15). Por causa da pregação JESUS FOI CRIDO NO MUNDO, tornando o cristianismo o maior grupo religioso do planeta.  

5.     RECEBIDO ACIMA NA GLÓRIA

Após sua ressurreição Jesus esteve aqui ainda quarenta dias com cerca de quinhentos discípulos “recapitulando” os ensinos do Reino de Deus (1 Coríntios 15:3-8). Depois disso, começou sua ascensão: “Fiz o primeiro tratado, ó Teófilo, acerca de tudo que Jesus começou, não só a fazer, mas a ensinar, Até ao dia em que foi recebido em cima, depois de ter dado mandamentos, pelo Espírito Santo, aos apóstolos que escolhera... E, quando dizia isto, vendo-o eles, foi elevado às alturas, e uma nuvem o recebeu, ocultando-o a seus olhos.” (Atos 1:1-2, 9).
Jesus subiu de volta ao Pai para completar O MISTÉRIO DA PIEDADE, pois agora, Ele seria o Nosso Eterno Sumo Sacerdote (Hebreus 4:15), e seu Nome foi elevado sobre todo nome no céu, na terra e debaixo da terra (Filipenses 2:9-11).
Jesus não somente foi recebido no céu, Ele foi recebido NA GLÓRIA. Ele foi recebido com O REI DOS REIS e se assentou no Trono da Majestade à Direita de Deus Pai (Marcos 16: 19; Hebreus 1:3; 8:1). O MISTÉRIO DA PIEDADE está completo. Aleluia!

CONCLUSÃO

É assim que começa a “saga da piedade Divina”. Com uma trajetória que se tornou mensagem e estilo de vida. O Verbo que se fez carne, que foi justificado em espírito, que foi visto pelos anjos, que foi crido no mundo e que foi recebido em cima, na Glória. Agora, cônscios desta mensagem, podemos viver a plenitude desta piedade de Deus em nós. Não é mais um mistério, pois... 

...coisas que o olho não viu, e o ouvido não ouviu,e não subiram ao coração do homem,são as que Deus preparou para os que o amam. Mas Deus no-las revelou pelo seu Espírito; porque o Espírito penetra todas as coisas, ainda as profundezas de Deus. Porque, qual dos homens sabe as coisas do homem, senão o espírito do homem, que nele está? Assim também ninguém sabe as coisas de Deus, senão o Espírito de Deus. Mas nós não recebemos o espírito do mundo, mas o Espírito que provém de Deus, para que pudéssemos conhecer o que nos é dado gratuitamente por Deus.” (1 Coríntios 2:9-12).

Por Enéas Ribeiro

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

RELATÓRIO DA MISSÃO PARAGUAI


Mas tu, sê sóbrio em tudo, sofre as aflições, faze a obra de um evangelista, cumpre o teu ministério.
2 Timóteo 4:5

Lembrai-vos dos presos, como se estivésseis presos com eles, e dos maltratados, como sendo-o vós mesmos também no corpo.
Hebreus 13:3

E ele mesmo deu uns para apóstolos, e outros para profetas, e outros para evangelistas, e outros para pastores e doutores,
Querendo o aperfeiçoamento dos santos, para a obra do ministério, para edificação do corpo de Cristo.
Efésios 4:11,12

Entre os dia 01 à 07 de Agosto empreendemos uma viagem missionária à receptiva nação do Paraguai, onde realizamos uma Conferência de Avivamento na Igreja Evangélica Verbo da Vida com quatro cultos, uma Cruzada Evangelística na Takumbu, a maior Penitenciária do país também com quatro cultos, e algumas visitas em lares.

Chegamos no aeroporto internacional Silvio Pettirossi em Assunción as 1:30hs da manhã (eu e meu companheiro de missão ministro Danilo Mota).


QUARTA-FEIRA
14:30HS - E já na quarta-feira às 14:30hs realizamos o primeiro culto da Cruzada Evangelística no presídio, no pavilhão que leva o nome de “Remar”, onde centenas de detentos se reuniram para ouvir a pregação do Evangelho com muita atenção e respeito. Após pregar sobre o poder do Espírito Santo à partir do texto de Atos 19:1-7, abordando a necessidade do homem ser purificado pelo sangue para poder receber o Espírito Santo, mais de 150 homens entregaram suas vidas à Jesus Cristo, reconhecendo-o como seu Salvador e Senhor, muitos foram batizados com o Espírito Santo com a evidência de falar em línguas estranhas e outros testemunharam curas instantâneas, especialmente de coluna e dores renais.
20:00HS - À noite demos início aos trabalhos da Conferência de Avivamento na Igreja Evangélica Verbo da vida, liderada pelo amigo Pastor Alexander König. Pregando sobre o batismo com o Espírito Sato, vimos quatro pessoas recebendo com muito fervor a experiência naquela noite, além de muitas pessoas sendo renovadas pelo poder de Deus e ativadas em seus chamados.

QUINTA-FEIRA
14:30HS - A quinta-feira também foi extremamente produtiva no maior presídio do Paraguai. O culto desta vez foi no maior pavilhão, o “Libertá” com aproximadamente 700 detentos reunidos. Após o Ministro Danilo Mota cantar com muita unção o louvor “Aleluia”, discorri sobre o texto de Lucas 15:11-24 pregando sobre o filho pródigo e necessidade de regressar ao Pai através de Jesus Cristo. Desta vez, foram aproximadamente 200 decisões por Cristo. Aleluia! Após a oração, mais pessoas testemunhando cura e muita adoração a Deus com a banda cristã do presídio. Foi um dia poderoso!
20:00HS - Outra vez demos início a mais um culto da Conferência de Avivamento na Igreja. Preguei sobre o propósito de Pentecostes em nossa vida e ministério. Dezenas de pessoas responderam ao chamado de se dedicar à obra de Deus na Igreja e a evangelização. Muitos foram tocados e caíam sob o poder de Deus. Mais uma noite de altar cheio! Aleluia!

SEXTA-FEIRA
9:30HS – Os trabalhos da Cruzada no Presídio começaram cedo na sexta-feira. Estava programado um culto “especial” na área nobre com os chamados “barões” do tráfico internacional; mais de 150 homens e dentre eles, os homens mais ricos da América do Sul, produtores de maconha e cocaína e alguns chefes do PCC. Discorri sobre o texto de Lucas 19:1-10 pregando sobre o rico Zaqueu, que enriqueceu às custas de sofrimentos, pobreza e dor do próximo. Após abordar a atitude penitente de Zaqueu e sua sincera conversão, conclamei aqueles homens ao arrependimento com base no amor de Deus por eles e no destino eterno de suas almas. Aproximadamente 60 daqueles homens se entregaram a Jesus em lágrimas, e vários deles foram curados de diversas enfermidades e dores. Um deles com seis balas alojadas no corpo, sendo duas na bacia, puderam andar normalmente e fazer movimentos antes impossíveis após a oração. Uma manhã poderosa de muitos “Zaqueus” salvos.
Antes do último culto em Takumbu, visitei alguns presos em celas e na enfermaria. Foi uma experiência maravilhosa compartilhar do amor de Deus com aquelas almas preciosas.
13:30HS – Chegamos na hora da última reunião da Cruzada no lugar chamado “Tinglado”, uma espécie de galpão com quadra, onde estavam os viciados em crack e cocaína, que não tinham mais cela para dormir, mas estavam como mendigos debaixo de sol e chuva e em meio ao lixo. Pessoas rejeitadas pela sociedade e pelos próprios presos; doentes, abusados, viciados, oprimidos... Eram verdadeiros “gadarenos”, e foi sobre o texto de Marcos 5:1-14 que eu preguei, o gadareno. Anunciei o amor de Deus por eles, e como Jesus morreu em seu lugar; e quase 100 deles atenderam ao convite da salvação e libertação. Jamais senti tanta alegria! Eu desci da plataforma para orar por eles com imposição de mãos, e os abracei, cumprimentei e dei a atenção que eles, como criaturas de Deus merecem.

Cada dia que eu entrava naqueles pavilhões e as grades se fechavam após mim, era um momento tenso, mas que logo se tornava em uma experiência maravilhosa de amor e poder do Evangelho. Mais do que os guardas me escoltando, eu podia perceber os anjos de Deus em meu favor.
A Cruzada Evangelística na maior Penitenciária do Paraguai terminou com um “saldo” maravilhoso de aproximadamente 400 decisões por Cristo, além de dezenas de batizados com o Espírito Santo e muitos curados pelo poder do Nome de Jesus. Segundo as palavras do Diretor do presídio, o irmão Luís Maria Villarga, houve um avivamento em Takumbu.
Preparamos o caminho para o célebre evangelista nigeriano TB Joshua, que faria também uma Cruzada em Takumbu na semana seguinte.
20:00HS – A sexta-feira termina com outro culto poderoso na Conferência de Avivamento. Debaixo de uma unção impressionante, as pessoas não puderam ficar de pé, e eu mesmo tive dificuldades de estar de pé para ministra-los, sendo sustentado pelo braço do meu amigo e intérprete Pr. Alex. O ministério profético neste dia começou a operar com muita força, através de precisas palavras de conhecimento e também muitas curas. Que culto inesquecível!

SÁBADO
19:00HS – Na manhã de sábado, fui conhecer o centro de Assunción em um momento cultural. O Paraguai é fascinante!
A noite (19hs) a Conferência de Avivamento continuou com uma mensagem sobre: “Quando a Unção é desprezada”, com base em Marcos 6:1-6, concitando a congregação a valorizar a presença e o poder de Deus sempre disponível nos cultos. Mais uma vez, o altar se encheu de pessoas sedentas pelo poder de Deus. Outra vez parecia impossível ficar de pé, e a unção era tão densa no ambiente, que se podia “tocar em algo” ao levantar as mãos. Que glória vivenciamos neste dia!

DOMINGO
18:00HS – De manhã fizemos uma visita a um homem em estágio muito avançado de câncer, que foi tocado pelo poder de Deus quando orávamos e se levantou do leito curado. Aleluia!
À noite tem início o último culto da Conferência de Avivamento na Igreja Verbo da Vida no Paraguai, desde o começo do culto a glória de Deus se fez sentida através de uma linda mensagem de inspiração do irmão Luis Villarga e de louvores inspirados como “em el trono”.
Com base no texto de 1 Coríntios 15:45-49, ministrei sobre as “Realidades da Nova Criação”, ativando no espírito de cada presente, a consciência da habitação do Espírito e a identificação com a vida e o ministério de Jesus.
Não poderíamos ter encerrado a Conferência de maneira melhor. No altar estavam pessoas desejosas de viver mais prática e profundamente a vida ressurreta de Cristo, e receberam o poder de Deus para isso, além de palavras de conhecimento específicas que promoveram muito quebrantamento e manifestações do Espírito.
O Paraguai é um potencial do avivamento mundial.
Deus nos abençoou com uma semana apostólica e gloriosa. Aleluia!

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

EVANGELISTA, O AMIGO DE PECADORES


A natureza inclusiva do ministério de Jesus foi extremamente confrontadora para os judeus, com sua cultura religiosa de separação ascética. Era inadmissível para o judeu ortodoxo, em especial o fariseu, a mera comunicação visual com gentios ou pecadores; seu elevado padrão de auto-justiça e moralidade, fazia com que estes religiosos extremistas enojassem aqueles que professavam sua fé e seu estilo de vida. Surge, então, Jesus de Nazaré, com uma nova proposta de alcance das massas, Ele não queria fazer prosélitos do judaísmo, nem tão pouco impor novos dogmas ou leis às pessoas, Ele as convidava para entrar no Reino de Deus, com sua Lei do Espírito, sua contracultura, e suas promessas vindouras. Mas este não era o grande problema na perspectiva dos fariseus; o problema era o público alvo de Jesus: Todo o que crê. Indignado com o critério intolerante do “crivo” religioso dos judeus, Jesus desabafa:

E disse o Senhor: A quem, pois, compararei os homens desta geração, e a quem são semelhantes? São semelhantes aos meninos que, assentados nas praças, clamam uns aos outros e dizem: Nós tocamos flauta, e não dançastes; cantamos lamentações, e não chorastes. Porque veio João batista, que não comia pão nem bebia vinho, e dizeis: Tem demônio. Veio o Filho do Homem, que come e bebe, e dizeis: Eis aí um homem comilão e bebedor de vinho, amigo dos publicanos e dos pecadores.
Lucas 7:31-34

         Este foi o apelido que Jesus recebeu, “Amigo de pecadores”, e este é a realidade, pois até então, os pecadores não tinham ninguém por si, senão a acusação, rejeição e exclusão social, mas agora, em Jesus, eles encontram uma nova mentalidade sobre o interesse de Deus por eles.

         Jesus é o Evangelista por excelência, Ele é, não somente o principal propagador da Boa Nova do Reino de Deus (o Evangelho), como é também, o autor desta Boa Nova; e Ele mesmo nos deixou um paradigma absoluto e imutável para o ministério evangelístico com sua mentalidade e visão inclusiva e contextualizadora.

         Inserido em uma cosmovisão judaica separatista, Davi externou um celebre Salmo que em sua época refletia a vontade de Deus para o povo de Israel: “Bem aventurado o varão que não anda segundo o conselho dos ímpios, nem se detém no caminho dos pecadores, nem se assenta na roda dos escarnecedores.” (Salmo 1:1).
         Não desejo em hipótese alguma ferir a ortodoxia bíblica veterotestamentária, mas considerando a nova proposta de Jesus de alcance dos desafortunados irreligiosos, não podemos como Igreja de Deus em Cristo Jesus, praticar a literatura desse texto, senão, apenas o primeiro conselho davídico para os nossos dias: “não andar segundo o conselho dos ímpios”. Perceba, porém, que Jesus em seu ministério terreno não foi guiado pelo conselho de homem algum, mas pelo Espírito Santo, embora, contrariando o salmo, ele constantemente se detinha no caminho dos pecadores, e sem constrangimento se assentava na roda dos escarnecedores; a grande diferença era que Ele não pecava nem escarnecia, mas influenciava. Este é o legado de um verdadeiro Evangelista e de um cristão com visão apostólica, ao contrário dos cristãos neófitos ou hipócritas, ele se dá com os não crentes.
         Este “dom” evangelístico de contextualização consiste em pelo menos cinco aspectos a serem desenvolvidos pelo aspirante a evangelista e pela Igreja biblicamente Apostólica:
(1) Um discernimento da mente dos não crentes;
(2) Uma linguagem peculiar aos não crentes;
(3) Uma interação sem medo com os não crentes;
(4) Uma familiarização num nível pessoal com os não crentes;
(5) Uma habilidade de compreender e sanar crises enfrentadas pelos não crentes.

         No contexto em que o apóstolo/evangelista Paulo orientava a Igreja de Corinto acerca do procedimento disciplinar apropriado para lhe dar com um caso de extrema imoralidade sexual dentro da igreja, ele chega em certo ponto e escreve:

Já por carta vos tenho escrito que não vos associeis com os que se prostituem; isso não quer dizer absolutamente com os devassos deste mundo, ou com os avarentos, ou com os roubadores, ou com os idólatras; porque então vos seria necessário sair do mundo. Mas, agora, escrevi que não vos associeis com aquele que, dizendo-se irmão, for devasso, ou avarento, ou idólatra, ou maldizente, ou beberrão, ou roubador; com o tal nem ainda comais.
I Coríntios 5:9-11

         Esta uma das marcas da consciência evangelística, a dissociação com os falsos irmãos, e a associação com os descrentes pecadores. O ponto aqui não é comunhão, mas sim influência. Jesus comparou o Reino de Deus com o fermento (Mateus 13:33), e uma das características do fermento é que não é a massa que influencia e altera o fermento, mas o fermento influencia e altera a massa, e na concepção apostólica tanto de Jesus Cristo, quanto de Paulo, o fermento ruim não é o incrédulo pecador, mas sim o pseudo-religioso e o crente profano (Mateus 16:6, 12; I Coríntios 5:6-7).

         A mentalidade evangelística legalista de muitas igrejas de nosso século, não se parecem em nada com o método apostólico de evangelização. Não acredito que Jesus ficou incomodado ou perturbado com o fato de um de seus mais influentes apóstolos ter caminhado três anos e meio com Ele sem renunciar a espada que estava em sua cintura, Jesus se fazia de desentendido com a situação, pois sabia que a ação do Espírito Santo no advento de Pentecostes o transformaria. Não adiantaria tirar a espada da cinta e não tirá-la do coração; não adianta vivermos regidos por códigos religiosos de leis: “pode isso, e não pode aquilo”, isso não é transformação, é mera religião (Colossenses 2:20-23). Não ganhamos almas para Cristo, para sobrecarregá-las com nossas ordenanças dogmáticas denominacionais; não podemos tentar usurpar o papel regenerador do Espírito.

         Parece-nos que Paulo possuía uma abordagem contemporânea do evangelho, repleto da doutrina de Cristo oculta em linguagem greco-romana (vigente na época), porém, desvinculada dos elementos ritualistas da fé judaica. E nós, como uma geração apostólica, precisamos desenvolver uma “nova” linguagem missiológica; em outras palavras, precisamos renunciar nosso “evangeliquês igrejeiro”, encontrando o equilíbrio de uma fala sã e irrepreensível, e ao mesmo tempo moderna e culturalmente contextualizada. Da mesma forma, Paulo também se utilizava de uma metodologia transcultural arrojada, que perturbou o senso de sagrado e profano dos religiosos de seu tempo, e certamente teria causado a mesma perturbação em igrejas retrógradas em nossos dias. Em poucas de suas palavras podemos compreender a visão evangelística e missionária de Paulo:

Porque, sendo livre para com todos, fiz-me servo de todos, para ganhar ainda mais. E fiz-me como judeu para os judeus, para ganhar os judeus; para os que estão debaixo da lei, como se estivera debaixo da lei, para ganhar os que estão debaixo da lei. Para os eu estão sem lei, como se estivera sem lei (não estando sem lei para com Deus, mas debaixo da lei de Cristo), para ganhar os que estão sem lei. Fiz-me como fraco para os fracos, para ganhar os fracos. Fiz-me tudo para todos, para, por todos os meios, chegar a salvar alguns
I Coríntios 9:19-22

         Nas palavras do versículo 22 Paulo revela a abrangência de sua estratégia: “...para, por todos os meios, chegar a salvar alguns.

         A rejeição e a perseguição nem sempre é reflexo de uma igreja santa e separada; na verdade, no modelo apostólico de avivamento em Atos, a igreja estava “...caindo na graça de todo o povo. E todos os dias acrescentava o Senhor à igreja aqueles que se haviam de salvar.” Muitas vezes, o motivo real da igreja moderna ser rejeitada e pisada pelos homens, é que ela é um “sal imprestável” que perdeu o sabor e não tempera. “Vós sois o sal da terra; e, se o sal for insípido, com que se há de salgar? Para nada mais presta, senão para se lançar fora e ser pisado pelos homens.” (Mateus 5:13).

         A Igreja é comparada por Jesus a uma poderosa cidade, geograficamente edificada sobre um monte; também é comparada a uma luminosa lâmpada acesa, colocada em evidência num velador de uma casa escura, assim, Jesus exorta a que não nos escondamos ou nos alienemos deste mundo como, pois a luz só é luz brilhante em contato com as trevas (Mateus 5:14-15). Em sua oração sacerdotal Jesus rogou ao Pai, a que não nos tirasse do mundo, mas que nos livrasse do mal (João 17:15-18).
         Um cristão apostólico, e especialmente um genuíno evangelista, não pode resplandecer a sua luz no contexto interno da Igreja, ao contrário, como disse o Senhor: “Assim resplandeça a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem o vosso Pai, que está nos céus.” (Mateus 5:16).

         Acredito que a atitude evangelística mais arrojada e confrontadora de Jesus foi sua entrada na residência do chefe dos corruptos cobradores de impostos da época, Levi. Somente para que entendamos o caráter radical da rejeição desses chamados publicanos por parte dos judeus, eles eram também judeus, porém, trabalhavam colhendo de seus patrícios, impostos abusivos para o governo romano, além disso, eram homens profanos e destituídos dos valores morais oriundos da Lei de Moisés. Assim, houve a exigência de uma irrevogável separação de todo judeu ortodoxo desses pecadores inveterados. A narrativa bíblica não somente nos diz que o Mestre não somente viu Levi na coletoria e o chamou, mas também, entrou em sua casa. Isto era inadmissível, uma atitude das mais profanas e contaminadoras que um judeu poderia tomar, especialmente em se tratando de um rabino tão aclamado na época como Jesus. Certamente, até mesmo seus discípulos o censuraram secretamente. E respondendo a indagação legalista dos escribas da lei e dos fariseus, Jesus declara: “...Os são não necessitam de médico, mas sim os que estão doentes; eu não vim chamar os justos, mas sim os pecadores.” (Marcos 2:17).

         Precisamos parar de oferecer “quimioterapia para os resfriados da igreja”; a verdadeira praga está assolando o mundo à nossa volta, e ela se chama PECADO. Vamos às casas e mesas dos doentes pecadores e levemos o único remédio que os pode curar de fato, a Vida Eterna, por Cristo Jesus, nosso Senhor (Romanos 6:23).

         Voltemos a citar Paulo de Tarso, pois nenhum outro ministro compreendeu essa natureza abrangente da influência do evangelho quanto ele. Considerando a mentalidade de Jesus Cristo (I Coríntios 2:16), Paulo escreve: “E, se algum dos infiéis vos convidar e quiserdes ir, comei de tudo o que se puser diante de vós, sem nada perguntar, por causa da consciência. Mas, se alguém vos disser: Isto foi sacrificado aos ídolos, não comais, por causa daquele que vos advertiu e por causa da consciência; porque do Senhor é a terra e toda a sua plenitude.” (I Coríntios 10:27-28).
         Este deveria ser o apelido de cada evangelista e de cada crente cheio do Espírito Santo e com a mente de Cristo: “AMIGO DE PECADORES”
         Deus em Cristo o abençoe.